Fundação Eça de Queiroz

Para os preparativos de minha primeira viagem à Europa, minha mãe me disse que eu devia ler “A cidade e as Serras” de Eça de Queiroz.

Era uma recomendação tipo: não esqueça o casaco, um bom sapato e o Eça.

Pois bem, conheci a Paris de Jacinto e as Serras de Baião antes de embarcar para minha primeira viagem ao velho continente.

Então, em minha recente viagem com o João, só nós, resolvemos passear saindo do Porto até a Fundação Eça de Queiroz.

Pegamos a A4, depois a N211 e através de umas estradinhas um pouco sinuosas, que permeavam uma aldeia ou outra, chegamos até a Casa de Tormes.

Entrada da Fundação Eça de Queiroz

Essa casa foi parte da herança recebida pela esposa de Eça de Queiroz, filha do Conde de Resende.

Eça havia enviado uma carta aos empregados avisando de sua chegada no intuito de conhecer a propriedade e tomar pé da situação, mas assim como na história de Jacinto, a carta nunca chegou.

Então Eça teve que percorrer o caminho da estação até a casa, onde encontrou caseiros desavisados e que utilizavam a casa para celeiro.

Dessa vivência brotou “A cidade e as Serras”.

Mas voltando a 2018, João e eu chegamos na casa de Tormes por volta de 11:25. Entramos, mas não havia ninguém.

Caminhamos até o restaurante que fica atrás da casa, onde havia algumas pessoas arrumando as mesas.

Lá falamos que queríamos visitar o museu, mas não havia ninguém, ao que fomos informados que precisávamos tocar a campainha.

Aproveitamos e falamos que gostaríamos de almoçar ali, ao que o rapaz gentilmente falou que “convinha fazer reserva”.

Não fizemos a reserva e achamos graça do que pensávamos ser uma formalidade, pois não passava por nossos pensamentos que um restaurante ali pudesse lotar.

Voltamos ao museu e depois de procurar um pouco, achamos a tal campainha e tocamos.

Vista da Fundação Eça de QueirozUma moça apareceu e então falamos que estávamos ali para conhecer o museu. Eram 11:36.

A moça respondeu que a próxima visita era às 12:30 e que já havia uma marcação prévia para que a visita fosse dada em inglês, perguntando se não queríamos nos juntar ao grupo.

Perguntei se não podíamos participar da visita de 11:30, já que estávamos ali.

Ela então respondeu que não, pois apesar de não haver grupo para aquele horário, só nós estávamos naquele lugar, não seria possível fazer uma visita completa pois às 12:30 o grupo inglês chegaria.

Naquele breve momento fiquei abismada com o rigor e resolvi encrencar também.

Disse que não tinha interesse em fazer a visita em inglês, que tínhamos chegado na hora, mas não percebemos a campainha e achava uma pena ter chegado até ali para nada,  e que infelizmente ia seguir a vida sem conhecer o lugar.

Foi então que a guia disse as palavras mágicas: posso tentar fazer uma visita resumida com vocês, mas não posso atrasar o grupo das 12:30.

João já sentindo que o meu humor ia escorrer pelo ralo, logo disse: eu pego! Topamos o resumo!

Fomos então conhecer a casa de Tormes!

IMG-2581

Logo na primeira sala, onde se encontra a mesa e a cadeira do Jacinto, minhas lágrimas começaram a aflorar de emoção. Por mais que eu tentasse controlar, elas desobedientemente insistiam em cair.

Fui ficando com vergonha de nossa guia que só podia pensar: que senhora desequilibrada!

Mas não, Daniela, nossa guia, foi direto ao ponto: “suas lágrimas são de emoção?”

Não pude mais disfarçar e me rendi. Confessei minha alegria e emoção em ver aquele “cenário” que fez brotar uma história tão linda.

Conclusão, nossa guia ficou muito feliz e se esmerou na apresentação de toda a casa, mostrando cada detalhe com todo cuidado e atenção e ao final, o grupo inglês, na verdade um casal de americanos, não foi prejudicado.

A visita, que custa 5 euros por pessoa, é uma verdadeira viagem ao universo queirosiano!

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Um dos passeios mais bonitos que fiz em Portugal.

A bela visita, se encerra numa pequena loja com souvenires que remetem ao Eça. Seguimos depois para o restaurante que fica logo atrás do museu.

Lá chegando ainda não havia ninguém além de nós.

Perguntamos se já estava aberto e se podíamos sentar para almoçar.

Uma moça olhou para o rapaz que estava coordenando o lugar e ele então afirmou que sim. Já íamos sentando em qualquer mesa até que ele falou que só tinha uma disponível.

Obedecemos e ficamos lá pesquisando o cardápio até que, de repente, começou a chegar uma pessoa após outra e em minutos o restaurante estava mesmo lotado.

Parecia algo como gremilins que iam brotando do nada.

Afinal , a reserva convinha de fato. Demos sorte. Outro casal que também apareceu sem reserva, teve que aguardar no frio.

O almoço foi excelente. Continuando nossa viagem pelo universo de Eça, pedindo o arroz com favas, o prato que Jacinto e Eça comeram quando chegaram à casa de Tormes.

Um prato simples, mas com sabor de poesia.

As favas são grandes feijões verdes com gosto de ervilha, cozidos com o arroz bem molhado e com choriço da região.

Acompanhamos as favas com um vinho rosé da Quinta da Covela. Uma delícia!

Foi um dia para ficar para sempre na memória!

 

Fundação Eça de Queiroz
Telefone: +351 254 882 120
https://feq.pt/

 

1 comentário Adicione o seu

  1. Cris Vieira Slazinski disse:

    Violeta, li o seu relato com gosto, especialmente por tratar da casa de Eça, minha paixão literária!

    Confesso até uma ponta de inveja (branca e boa!) da oportunidade que você teve de penetrar um pouco na sua intimidade!

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