O Apartamento em Lisboa – Parte II

Através da internet e das fotografias profissionais do site, conhecemos cada canto do apartamento. Restava chamar as sobrinhas e o cunhado para visitarem o apartamento para verificar in loco se as fotos eram fidedignas.

No prédio ainda havia dois apartamentos para venda. Um no rés do chão, o que significa ser no andar térreo e o que veio a ser o nosso, no quarto andar.

Ligamos por Skype para a corretora, e marcamos a visita.

Jorge, meu cunhado, e a sobrinha, ficaram encantados com o apartamento e ainda me lembro do que Carolina falou: “não me importava de morar aqui”!  O que significa que gostou muitíssimo.

 Os próximos passos foram as negociações de preço e de sinal de princípio de pagamento, tudo por Skype.

Nunca havíamos feito nada parecido nem conhecíamos ninguém que havia feito também. Certo é que após nos enchermos de coragem, compramos um apartamento do outro lado do Atlântico pela internet.

Depois de tudo combinado, fizemos uma viagem para finalmente conhecer o apartamento e efetivamente fechar o negócio. Fizemos a visita horas antes de irmos para a loja da corretora, no Príncipe Real. Se gostássemos do apartamento daríamos o sinal para a reserva, o que retiraria o apartamento do mercado até o pagamento total.

Ficamos encantados e imaginando o futuro naquele lugar. O prédio ainda estava vazio, não se via ninguém. Sabíamos apenas que o quinto andar tinha sido comprado por uma família da Suíça.

A sala e o quarto tinham piso de tábua corrida o resto do apartamento era chão de mármore. A cozinha tinha uma placa de vidro verde água até certa altura da parede, que contrastava com bancada preta e eletrodomésticos de aço e fogão de placa de vidro preto também.

Para os portugueses, vender um apartamento novo sem que a cozinha venha equipada é algo que não faz sentido algum.

O prédio, como a grande maioria dos edifícios em Lisboa, não tinha porteiro. A entrada era uma grande porta pesada de madeira que dava para a Calçada do Duque, uma escadaria que vai da Rua Nova da Trindade até o Rossio, passando pela estação de trem de mesmo nome.

No século XIX essa escadaria era lugar de comércio de alfarrabistas e de estúdios de fotografia. As famílias burguesas apreciavam tirar fotos num cenário de estúdio, em geral com muitos livros ao fundo, mostrando requinte e erudição.

Mas voltando ao século XXI, hoje a Calçada do Duque é uma escadaria com alguns restaurantes, um deles argentino, chamado Buenos Aires, que tem uma excelente carne e vinho a preço justo. No filme “Trem noturno para Lisboa”, Jeremy Irons caminha pelas escadarias.

Decidimos jantar no tal Buenos Aires, pois queríamos ver o ambiente ao redor do prédio durante a noite. Até então, se desistíssemos da empreitada, perderíamos o sinal que tínhamos dado, mas queríamos ter alguma certeza de que nossa loucura não era caso de internação.

Foi então que tivemos a nossa primeira lição sobre os modos e comportamento dos portugueses.

Chegando no restaurante vimos um rapaz que notoriamente servia as mesas dispostas na própria rua, na plataforma reta que entremeia os degraus da Calçada. As mesas ficam tão próximas umas das outras que parece mesmo ser uma grande mesa coletiva.

Nos aproximamos do garçom e diretamente falamos que queríamos uma mesa para dois. Imediatamente ele respondeu: Boa noite! O que nos deixou muito sem graça pela nossa própria inadvertida indelicadeza.

Pois é, nós brasileiros, muitas vezes, nos acostumados a nos dirigir a garçons, vendedores, e todos os tipos de profissionais dizendo diretamente o que queremos.

Portugal nos ensinou a delicadeza perdida. Todos se cumprimentam. Ainda há um tratamento cortês não esquecido entre as pessoas.

Pedimos desculpa, cumprimentamos o garçom e repetimos nossa pergunta que então foi escutada e nos encaminhamos para nossa mesa. Estávamos muito felizes. Tão felizes que não nos contivemos e oferecemos duas taças do nosso vinho ao casal da mesa ao lado, praticamente colada à nossa.

Era um jovem casal que conhecia bem as redondezas e nos confirmou que ali era uma local bacana.

Na escadaria ainda havia outros restaurantes, uma pensão que alugava quartos e uma loja de venda de vinis antigos que proporcionava música na calçada durante o dia.

Nosso prédio era de esquina. A rua do lado se chamava Rua da Oliveira ao Carmo, rua muito estreita, mas era a rua de entrada da garagem do prédio.

Nosso apartamento não tinha garagem. Só o quinto andar e o segundo possuíam vaga, mas confesso que mesmo que tivesse, nunca conseguiria passar com o carro numa rua tão estreita e que volta e meia alguém simplesmente estacionava na rua até que algum incomodado reclamasse.

Na rua também havia crianças portuguesas que brincavam tranquilamente. Mas com o tempo tudo isso foi mudando e as crianças deram lugar aos turistas.

A Rua da Oliveira ao Carmo dava direto no Largo do Carmo, um lugar marcante da história de Portugal. Foi lá que em 1974 o capitão do Exército, Salgueiro Maia, que comandou as tropas que tomaram Lisboa vindos de Santarém, rendeu Marcelo Caetano, o último Presidente do Conselho do Estado Novo, no regime salazarista, que se refugiava no quartel do Carmo.

No Largo do Carmo também erguem-se as ruínas da Igreja do Convento do Carmo, destruída pelo terremoto de 1755, que devastou Lisboa de forma trágica. Grande parte da arquitetura de Lisboa é conhecida como arquitetura pombalina, devido à decisiva participação do Marquês de Pombal no comando dos trabalhos de reconstrução da cidade. Hoje em dia as ruínas do Convento abrigam o museu arqueológico do Carmo, primeiro museu de arqueologia de Portugal.

No dia seguinte fomos até a corretora e assinamos o contrato de compra e venda que levaríamos para o Brasil. Sabíamos que para a compra do imóvel e o necessário envio de dinheiro do Brasil para Portugal precisávamos de documentos de comprovação do negócio, mas não só.

O documento teria que ser, como nos informaram no Brasil, notariado, registrado no Ministério de Negócios Estrangeiros em Portugal e consularizado no Consulado do Brasil.

Essa tarefa toda nos deu alguma dor de cabeça, pois os portugueses não tinham ideia do que estávamos falando.

Ainda me lembro de como uma senhora de uma das repartições que fomos achou graça do fato de estarmos requerendo seu “carimbo” mas explicou a seu secretário que estava acostumada a atender os brasileiros que buscavam a sua “carimbada” nas compras de imóveis, o que para ela era uma excentricidade.

Estávamos com todos os carimbos possíveis e prontos para voltar para o Brasil e enviar o dinheiro. Nessa época lembro que o euro estava valendo R$2,16.

Conseguimos do proprietário o direito de acesso ao apartamento mesmo antes de pago o preço integral da compra. Pelo que entendi, em Portugal só se tem a posse do imóvel após o pagamento integral do preço, mas nosso vendedor era um sujeito camarada.

Fomos eu e João sozinhos ao apartamento para fazer medições para compra de futuros móveis. Na saída o elevador, que tinha paredes transparentes, parou e ficamos presos!!

O prédio estava vazio e sou um pouco claustrofóbica. Acho que se as paredes não fossem transparentes eu teria sucumbido! Já imaginava as manchetes: casal de brasileiros é encontrado morto em elevador de prédio vazio no centro de Lisboa!

Por sorte um operário que trabalhava em algum dos apartamentos entrou no prédio e nos ajudou. Ligou para o telefone que estava estampado bem em cima dos botões dos andares, com o número da empresa de manutenção do elevador. Na minha agonia não conseguia nem mesmo ler português.

Tínhamos então um apartamento sólido como queria o João, com novos encanamentos, luzes funcionando perfeitamente, paredes sólidas e ao mesmo tempo estávamos numa zona histórica.

Estávamos no Chiado!

Voltamos para o Brasil. Me lembro até hoje da sensação partilhada com o João de voltar para o Brasil sabendo que 80 metros quadrados num certo edifício no Chiado agora era nosso.  Faltava só pagar o preço.

 

 

 

Não deixe de conferir o texto “O Apartamento em Lisboa – Parte I” aqui!

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